Juntando a prática clínica ao trabalho de orientação com famílias em colégios, pude constatar que os pais tem claro o que desejam para o futuro de seus filhos. Todos sabem, por intuição, sensibilidade ou conhecimento teórico que preparar seus filhos para uma vida adulta saudável, significa prepará-los para que alcancem independência financeira e para que consigam constituir nova família.

Não só concordo como reforço comentando:

Dentro da área de psicologia dizemos que o adulto precisa caminhar em duas direções: produzir/trabalhar e amar/vincular-se a alguém.

Portanto o objetivo final está muito claro. O que buscam enquanto resposta é como leva-los a este resultado; qual a melhor maneira de ajuda-los? No que podem colaborar? Para que “meu filho” chegue lá, quais as características que precisa desenvolver? Sob o meu ponto de vista, a principal delas, sendo as demais decorrentes desta primeira, é a capacidade para tolerar frustração.

Por que é tão importante esta peculiaridade?

  • Para que o jovem de 22, 23 anos, recém saído da faculdade, não se sinta derrotado ao perceber que se passaram três meses e ainda não encontrou o emprego de seus sonhos.
  • Para que a garota de 17,18 anos ao tentar o vestibular pela primeira vez, não se sinta derrotada se não obtiver êxito.
  • Para que possam sentir dor, entristecerem-se mas não sucumbirem diante de um término de namoro.

Há uma diferença vital entre frustração e derrota. Sentir-se derrotado é correr o risco de paralizar-se por uma auto-imagem denegrida; é sentir-se incompetente nos vários setores da vida. Ao contrário, a frustração apesar de ser um sentimento que desaponta, que aborrece, que vai em desacordo ao desejo, não inviabiliza novas tentativas; significa aprimorar-se cada vez mais nas buscas; significa entender: “este não é o caminho certo, procure outro”.

A benéfica presença da frustração em nossas vidas

Se conseguirmos ajudar nossos filhos neste aspecto, também estaremos auxiliando-os a amadurecer emocionalmente quanto ao tempo de espera. A imaturidade está coligada ao imediatismo. Saber esperar é uma condição humana favorável à conquistas. Saber esperar significa lidar com o tempo a seu favor. Saber esperar é um primo próximo da conquista e da construção.

Viver a reciprocidade (enxergar o outro) também é conseqüência da aprendizagem à frustrações desenvolvida a partir do tempo de espera: “…sei esperar meu pai providenciar a compra da minha bicicleta…” A reciprocidade deve ser vista como equilíbrio: só doar indica fragilidade pois está sempre se submetendo à vontade dos demais; o prazer depositado apenas no prazer do outro. No entanto, só sentir prazer em receber tem o sentido de ignorar quem nos rodeia; é estar centrado só sobre si mesmo negando a presença do externo.

O que fazer como pais?

Se, acima citei que saber lidar com a frustração é ter nas mãos um elemento fortalecedor da vida, nada mais simples que sugerir aos pais que propiciem, promovam, provoquem situações que possam ser resolvidas pela frustração. Como? Não satisfazendo-os em tudo e/ou de imediato. Evitando criar tiranos que exigem muito dos outros e muito pouco de si mesmo. É não ter medo de dizer “não”. Neste momento me vem à cabeça uma pergunta: “…e porque será que muitos pais tem tanta dificuldade em se posicionarem contrário à vontade dos filhos?” Acredito que:

  • por medo de perderem o afeto destes filhos – (isto não existe)
  • por acharem que o conflito não leva a nada – (ledo engano)
  • o “não posso comprar” visto como uma confissão de incapacidade e não como estratégia educativa.
  • pelo fato dos próprios pais não conseguirem suportar frustrações: “como é difícil aceitar uma reprovação escolar de seu filho…como é difícil esperar um desenho animado acabar para ver sua ordem cumprida ao chamar para o jantar…”, são exemplos do dia a dia mas que revelam baixa capacidade de espera.

E na escola, há o que fazer?

Da mesma maneira que a sugerida aos pais ou seja, permitir que a frustração surja pois na sociedade há regras que devem ser cumpridas mesmo que isto dê origem a desagrados individuais. A escola é um sistema que pode ser vivida como uma mini-sociedade pois há como lidarmos com sistema de hierarquia, com a lei do mais forte, com valores e preceitos básicos, etc. Causa e conseqüência podem aparecer de maneira mais efetiva, quase que como um treinamento para situações mais complexas, mas que trazem em seu bojo o mesmo principio.

Novas experiências são enriquecedoras.

Prepara-los para saber lidar com frustração, tirar proveito disto e se fortalecer, significa não só aceitar, como estimular movimentos de “afastamento” quando surgem: – aceitar um convite por exemplo para dormir na casa de amigos é entrar em contato com outras realidades adaptando-se a novas regras, é conhecer, comparar e deduzir que tudo que aprendeu pode ser vivido de várias outras maneiras.

Mensagens de otimismo, encarados dentro do processo natural, devem sempre ser enviadas tanto pela escola como pelos pais, para que não se confirme a ideia errônea de que frustração é ruim: “…não deu certo desta vez? Ora…não faz mal…dará na próxima…” “Não conseguiu o que queria? Tente de outra maneira”.

Autonomia, independência e auto-confiança são aspectos desenvolvidos a partir da somatória de elementos internos (características pessoais) com a proposição e vivências externas.

Educadores e pais traçando linhas que demarcam limites, não só estarão ajudando a formar o indivíduo como também mostrando que apesar da realidade ter suas asperezas, é possível conviver com ela de maneira prazerosa.

Por Eneida Souza Cintra – CRP 06/23038-7
– Consultora em Distúrbios de Aprendizagem do CAOE
Psicóloga Clínica, mestre em Distúrbios do Desenvolvimento

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